# Capítulo 31: O Homem que Vale Um Bilh?o de Moedas de Ouro
## I. A Caminhada Sob a Lua Vermelha
A escurid?o do mundo era uma constante, um vazio que parecia ter engolido a própria luz. O céu ostentava a lua vermelha, e o ar, pesado e denso, era o fardo que se carregava diariamente. Naquela manh?, Zack e K caminhavam pelas estradas que levavam à Cidade Vermelha, a apenas trinta minutos de seu lar-fortaleza. Passavam pelo Lago Negro, cujas águas refletiam a melancolia do céu, e pela Floresta Vermelha, cujas árvores pareciam observar a dupla em silêncio.
Era uma das raras vezes em que K tinha a chance de ficar a sós com Zack. No início, ela sentia um medo reverencial. Os feitos de Zack haviam transformado seu nome em uma lenda de terror. "Zack" era um nome comum, mas o **Ca?ador dos Olhos Negros** era um vulgo que pertencia a apenas um homem, um homem cuja cabe?a valia a recompensa astron?mica de **um bilh?o de moedas de ouro**.
Três anos ao lado dele haviam desfeito a imagem do monstro. K notou a gentileza, o amor e, principalmente, a culpa que ele carregava por erros cometidos. Ele tinha uma aura forte, inegável, mas por dentro, era um homem que sentia que nunca havia realizado nada de verdade.
Enquanto caminhavam, K observava Zack. Ele carregava a Black Moon nas costas, disfar?ada sob um manto escuro para ocultar a espada e sua identidade. Seus olhos negros estavam fixos em algo que K n?o conseguia enxergar, uma linha no horizonte que só ele via.
— Zack, posso te perguntar algo pessoal?
— Claro...
K hesitou, olhando para o rosto cansado de Zack. Seus olhos negros, profundos e sem brilho, diziam muito sobre o peso que ele carregava.
— Orpheus foi embora há um mês. Você sabe que pode falar comigo. Estarei aqui. Sei que n?o sou Orpheus, nem Lyra ou Mira. No entanto, estou aqui para te ouvir e n?o irei te julgar.
Zack parou e olhou para K. A mulher morena, de olhos vermelhos e cabelos cacheados, estava pela primeira vez tratando-o como um amigo, sem o medo que o envolvia como uma mortalha.
Zack voltou a caminhar, sem responder. K sentiu-se desconfortável, pensando que sua tentativa de aproxima??o havia falhado.
Mas, em seguida, Zack respondeu, a voz baixa, quase um sussurro para o vento:
— Eu vou voltar para a minha cidade natal, K. **O País Poliedro**. As pessoas, meus antigos amigos, est?o lá. A verdade, K, é que a luta contra Tobi, meu grande irm?o de ca?ada, me afetou muito. Descobri muitas informa??es e, de certa forma, sinto que estou em um *loop*. Parece que já vivi isso antes e só estou recome?ando.
K ficou surpresa ao ver Zack se abrir. Sua mente tática lutava para acompanhar: Zack, loop, País Poliedro. Era muita informa??o.
— Por que se sente assim? Parece que a luta desbloqueou memórias em você, Zack?
— Sim. Na verdade, Tobi me disse tudo. A verdade é que ele foi usado e descartado por alguém que ambos amamos muito e que eu achei que estava morto.
— Meu Deus — respondeu K, a voz cheia de empatia. — Sua vida n?o é fácil, Zack. Sinto muito.
— Tudo bem, K. Todos nós tivemos uma vida difícil. Eu sei sobre sua amiga e também sei sobre seu passado.
## II. A Confiss?o da Black Moon
K segurou o bra?o de Zack, parando-o abruptamente. Ambos se viraram e se olharam.
— Como você sabe, Zack?! — gritou K, a surpresa rapidamente se transformando em fúria e trai??o.
— Eu vi suas memórias durante a nossa batalha, quando você ajudou Orpheus.
— Como?
— A Black Moon leu sua mente. E agora eu sei também. Sinto muito, K, mas n?o tenho controle sobre isso... A espada consome e absorve todos os seus medos e fraquezas.
K sentiu-se mal, traída, humilhada. A dor de ter seu segredo mais íntimo exposto, a lembran?a de sua amiga enforcada, era o fardo que ela carregava. Seus punhos se fecharam, a raiva fervendo em seus olhos vermelhos.
Mas, em quest?o de segundos, ela sentiu uma m?o em seu ombro esquerdo. Zack tirou o capuz, revelando seu rosto. O sorriso que ele deu era o lado mais amoroso que K nunca havia sentido, um sorriso que desarmava o Rei do Horror. Ele pediu perd?o a K e olhou profundamente em seus olhos.
— Enquanto você estiver sofrendo, vou estar ao seu lado para te ajudar. é assim que amigos fazem.
A raiva no olhar de K, os punhos fechados, foram se transformando em leveza. O homem mais temido do mundo estava mostrando seu lado mais gentil para ela.
K abra?ou Zack em um ato de conex?o. Foi o primeiro abra?o forte entre eles, um abra?o que selou o início de uma amizade verdadeira, forjada na dor compartilhada e na aceita??o mútua.
## III. A Barreira e o Messias
Ao chegarem à Cidade Vermelha, foram detidos por uma barreira. Era invisível, mas para Zack e K, que sentiam a energia, era palpável. Apenas as pessoas fortes sentiam e olhavam para aquela barreira, criada por Ygon para sentir a presen?a de quem entrava na cidade. Ele queria saber tudo que entrava e saía.
— N?o posso entrar, K. Você terá que fazer as compras.
K olhou para Zack, sem entender.
— Por que n?o? Você sempre vem com Lyra, Mira e o Menino.
— Sim, eu venho, K, mas n?o entro. Se eu entrar, vocês podem estar em perigo, e n?o quero chamar aten??o.
K lembrou-se de que, três anos atrás, antes de Ygon dominar a cidade, Zack era visto como um messias, tratado como uma divindade.
— Mas Zack, eles te amam...
— N?o mais, K. Ygon manipula a cidade, a religi?o, o exército. O discurso dele é lindo, mas ele tem medo de mim. Imagine como a popula??o reagiria se me visse. Eles iriam me apoiar e estar do meu lado. Eu sou aquele que Ygon n?o pode tirar das pessoas. Eu sou o messias para os cidad?os vermelhos.
K finalmente entendeu. Onde Zack ia, tudo mudava. Ela balan?ou a cabe?a, seu rosto e corpo firmes, pronta para a tarefa.
— Eu vou entrar, fazer as compras e logo sairei. Me espere aqui fora.
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— Certo, K. Tome cuidado e abaixe o nível de sua aura. Seu poder pode chamar aten??o.
K apenas acenou com a cabe?a e atravessou a barreira, seguindo em dire??o ao port?o vermelho de madeira e pedras negras. O port?o tinha trinta metros de altura, guardado por vários soldados com armaduras vermelhas e o símbolo de um olho grande. Os soldados olharam para K, e ela olhou de volta, passando tranquilamente.
Dentro da cidade, as casas haviam mudado. A arquitetura vermelha e as ruas vermelhas estavam lentamente sendo substituídas pelo negro. Ygon estava tirando a identidade do local aos poucos.
— Você mata a cultura e logo mata as memórias. Assim, o povo n?o sabe por que lutar — disse K para si mesma.
A cidade, que era próspera, mantinha-se ainda mais próspera. Ninguém passava fome, os mercados estavam abertos, e havia tendas vendendo de tudo. Mercenários, assassinos, ladr?es e ca?adores estavam por toda parte, mas havia uma lei clara imposta por Ygon: se alguém matasse, roubasse ou fizesse algo contra a ordem, seria queimado vivo na pra?a central. Ygon dava liberdade para qualquer lixo humano entrar, mas havia regras. Todos as seguiam, pois Ygon havia matado milhares de pessoas que n?o as cumpriram.
K passou pela pra?a e viu estacas gigantes de madeira com corpos colocados. Várias pessoas estavam mortas, crucificadas, e outras já haviam sido queimadas, restando apenas corpos carbonizados. Havia pessoas chorando, outras rindo e aproveitando a vista.
— Ent?o é assim a igualdade que ele busca — disse K. — Assustador.
## IV. O Bar Caneca Furada
De longe, K avistou o bar onde, três anos atrás, ela esteve com Tobi, Zack e outros do grupo. Ela pensou: *Vou comprar as bebidas para Zack. Ele realmente amava beber neste bar, e acredito que será um ótimo presente.*
O bar se chamava **Caneca Furada**. K foi em sua dire??o, atravessando a pra?a central, uma travessia que parecia a passagem do inferno.
O Caneca Furada era construído em um estilo gótico extremo, ocupando o que antes era uma capela. Arcos ogivais sustentavam um teto alto pintado com afrescos que retratavam batalhas antigas entre guerreiros de olhos vermelhos e criaturas das trevas. Gárgulas decorativas pousavam em saliências de colunas, observando os clientes com express?es congeladas em sorrisos maliciosos ou caretas de dor.
A ilumina??o vinha de lustres de ferro forjado e lanternas de chama azul, criando um hipnótico jogo de luz e sombra que dan?ava pelas paredes de pedra escura. Mesas maci?as de madeira entalhada preenchiam o espa?o principal, cada uma cercada por cadeiras de encosto alto que lembravam pequenos tronos.
O balc?o do bar era uma obra de arte: uma única laje de madeira preta petrificada, polida até um brilho obsidiana, esculpida com cenas de batalhas antigas e rituais esquecidos. Atrás dela, prateleiras exibiam uma impressionante cole??o de garrafas contendo líquidos de todas as cores imagináveis — alguns brilhando por dentro, outros emitindo fuma?a ou mudando lentamente de tom. A decora??o era completada por cranios humanos e de criaturas desconhecidas, alguns transformados em canecas ou luminárias, outros dispostos como troféus silenciosos.
O bar estava lotado. O barulho das canecas, conversas altas e risadas criavam uma cacofonia que contrastava com a atmosfera sombria lá fora.
De longe, K notou o mesmo barman. Atrás do balc?o estava **Vex** — um homem alto e magro, com olhos vermelhos intensos que pareciam brilhar na luz tênue. Calvo, com tatuagens rituais cobrindo o cranio e o pesco?o, ele usava um avental de couro sobre roupas pretas simples. Suas m?os se moviam com precis?o impressionante enquanto misturava bebidas.
Vex reconheceu K e levantou uma caneca, chamando sua aten??o. K foi em sua dire??o e sentou-se no banco, encostando no balc?o.
— Tu lembra de mim, Vex?
— Como n?o lembrar de uma morena linda.
Ambos riram, e o clima se tornou mais agradável para K.
— Onde está Zack? Estou com saudades dele.
— Ele n?o pode vir. Acredito que saiba o motivo, Vex.
— Sei sim... — Vex olhou fixamente para K.
— Vou levar umas bebidas para ele e quero que separe as melhores que ele ama.
Vex mostrou um sorriso enorme.
— é um prazer. Você n?o vai pagar nada, é por conta da casa. Ele é um irm?o.
K n?o entendia o motivo de as pessoas amarem tanto Zack, mesmo sabendo que ele era considerado um monstro.
— Por que vocês n?o o temem ou o ca?am pela recompensa, Vex? O que há de errado com essa cidade? Eles amam o Zack.
Vex usou suas habilidades em uma jun??o de agilidade com copos, garrafas e acrobacias.
— é simples... **Ele fundou esse bar e salvou várias vezes essa cidade.**
Os olhos de K se arregalaram, e sua boca se abriu em surpresa.
— Sem chance! Você está brincando comigo.
— Há muitos anos atrás, Zack chegou. Era apenas um garoto, em busca de ajuda, de um lar, desesperado por migalhas. Seus olhos negros n?o faziam diferen?a aqui. A gente tratou dele, cuidou e deu um lar. A cidade o acolheu sem mesmo saber seu nome ou de onde veio.
Vex continuou, a voz grave:
— Essa cidade era atacada por monstros do continente vermelho. Pessoas morriam todos os dias, crian?as eram as mais afetadas por serem alvo fácil. A cidade estava diminuindo rapidamente. Os monstros aumentaram, e as criaturas come?aram a desenvolver pensamentos, falas e consciência.
K questinou:
— As histórias dizem que as criaturas do vazio sempre mantiveram o equilíbrio sobre o continente vermelho e que nunca atacavam os humanos.
Vex riu, uma gargalhada verdadeira, e chorou de rir, como se fosse uma piada. Ele entregou um copo vermelho, com líquido preto, e um guardanapo para K, enquanto limpava os olhos.
— Ent?o... tudo mudou, K. As criaturas n?o entravam na cidade. A popula??o n?o entendia o porquê dessa mudan?a, até que um dos anci?es disse que Zack, toda noite, ca?ava as criaturas que entravam na cidade. Sua presen?a, a energia que ele emanava, sua aura, fazia todas as criaturas, que agora s?o conscientes, terem medo de atacar a popula??o. No final, K, **Zack doutrinou os monstros a ter medo das consequências.**
K deu um gole e tomou toda a sua bebida. Seus olhos brilhavam. Aquela era a história mais foda que ela já tinha ouvido.
— Zack é foda pra caralho — respondeu K, enquanto brindava com Vex.
Ambos sorriram ao descobrir que seu amigo em comum n?o era o monstro de um bilh?o de moedas de ouro, mas sim o seu salvador.
**FIM DO CAPíTULO**

