— O-O que...? — Gaguejou Micah como uma crian?a pega com as m?os no pote de biscoitos. Seu rosto havia se tornado t?o pálido quanto uma folha de sulfite. — De onde você tirou isso...?
Micah tentou se recolher em indigna??o, mas infelizmente para ele, sempre fora um péssimo mentiroso.
Ezra soltou uma gargalhada sincera, apoiando-se na mesa metálica, o corpo tremendo de tanto rir.
Micah ficou apenas parado, perplexo, sem saber se aquilo era deboche, loucura ou uma mistura perigosa das duas coisas.
— Ai, ai... — Ezra soltou um solu?o. — Micah, você realmente é uma figura— hic! — Olha! Até engoli ar.
O alquimista ficou um momento em silêncio, esperando o solu?o passar. Ele limpou a garganta antes de voltar à falar:
— Onde estávamos?
— Uh... Na parte que você, supostamente, disse que eu era de outro mundo? — Falou Micah, sem saber se ria ou chorava.
— Ah, é. Pois bem, se você tivesse deixado isso mais óbvio estaria literalmente esfregando na minha cara. — Retomou o raciocínio enquanto sentava na única cadeira da sala, cruzando as pernas e entrela?ando os dedos no joelho. — Primeiro: você fazia tantas perguntas que eu me sentia de volta nos meus tempos de palestra na guilda. Nenhum kaleorino capturado como escravo de guerra se preocuparia com tais futilidades, ele ou ela estaria mais preocupado em encontrar o melhor momento pra estrangular seu mestre e voltar à sua terra. Segundo: suas roupas. Eu nunca ouvi falar nesse “Time de Fute-bou”, muito menos nesse tecido. Terceiro: seu corpo — Ele mediu Micah de cima a baixo — magricela demais pra ser de Kaelor. Nenhum kaleorino, tanto nobre quanto camponês, deixaria seu corpo chegar à esse ponto. Lá até mendigo tem mais músculo que você. E, por fim… — sorriu, satisfeito — nada em você se encaixa. é gritante.
Ezra rodou sua cadeira perto de Micah, aproximando sua m?o para acariciar sua bochecha. Micah até tentou se afastar do toque dele, mas o alquimista continuou seu gesto, pouco se importando com o consentimento de sua cobaia.
— Você vem de um mundo fácil, n?o é, Micah? Fácil até demais. — Sua voz ficou mansa, quase triste. — Devo admitir, provavelmente é um mundo que eu adoraria viver. Mas n?o muda o fato de que é misericordioso demais para deixar que pessoas como você sobrevivam.
Ele devolveu a m?o ao colo, encerrando o toque sem pressa.
— De qualquer forma, isso n?o importa. Natural de Pulmérica ou n?o. Fraco ou n?o. Escravo ou n?o. Nada disso importará. Porque, gra?as à mim, sua natureza será elevada, acima do que qualquer homem jamais alcan?ou. Se você sobreviver, é claro.
Ezra finalmente levantou-se, voltando à sua bancada para continuar à confeccionar sua mistura bizarra.
O cora??o de Micah palpitava mais rápido do que nunca. A adrenalina inundava seu corpo como a água inunda uma cidade após a quebra de sua barragem.
Ele n?o sabia o que era tudo isso, mas ele sabia que tinha que sair dali, a qualquer custo.
— E-Ezra, por favor, me escuta! — Gritou Micah em desespero. — Eu fa?o qualquer coisa, eu juro! Só, por favor, me tira daqui! Eu imploro... Ezra! EZRA!
Micah continuava esperneando por ajuda enquanto seus olhos lacrimejavam. Para Ezra. Para alguém do lado de fora. Para Deus. Para qualquer maldito ouvido que sua voz chega-se. Mas de nada adiantava.
Ninguém o escutava.
Ninguém o acudia.
Ninguém se importava.
Como sempre foi. E, segundo alguns conhecidos, como ele sempre mereceu.
Ezra, já acostumado com o som de gritos, continuava focado em seu trabalho, t?o calmo quanto quem escuta latidos do outro lado da rua. Enquanto isso, ele pegou uma seringa e a encheu com a solu??o t?o azul quanto o céu, dando-a pequenos petelecos para garantir a ausência de ar. Logo em seguida se aproximando do seu projeto, já rouco e cansado de pedir socorro.
— Sabe o que é isto? — Perguntou o alquimista, mostrando a seringa à ele.
Micah apenas deu uma breve olhada nela e de volta à Ezra, ofegante enquanto o encarava com um olhar de ressentimento.
— Pelo jeito n?o. Isto é seiva de Anesthiris, mais conhecida como Trombeta do Sono Eterno, diluída dez mil partes por milh?o. — Explicou casualmente, admirando sua leve luminosidade. — Se consumida pura, a morte é garantida. Mas quando diluída, ela pode ser uma ótima ferramenta.
“Para eu elevar sua natureza, há alguns pré-requisitos à serem realizados. Um desses pré-requisitos é o primeiro passo à t?o sonhada Individualiza??o, ou seja, o Despertar da sua Imagem. Há várias formas de se Despertar a Imagem de alguém, alguns poucos indivíduos sortudos até nascem com ela já desperta. Mas a mais confiável até hoje é a técnica milenar dos Três Crepúsculos.”
“A técnica consiste em isolar o sujeito de qualquer influência externa, a fim de realizar um “jejum” de Karma, por assim dizer. Isso é realizado através da inje??o intravenosa da seiva de Anesthiris, que paralisa totalmente o sujeito por 72 horas seguidas. Nem mesmo suas pálpebras poder?o se mover.”
“Consequentemente, o Corpo Espiritual entra num processo de autodigest?o, Implodindo a alma dentro do próprio Núcleo Pneumático, onde a Imagem reside.”
Ele amarrou o torniquete no bra?o de Micah e limpou a dobra com álcool.
— Perd?o pela tagarelice. Mas é uma boa prática explicar o procedimento antes da cobaia entrar em coma. — E acrescentou, casual: — Depois disso, há apenas dois resultados. Acordar… ou nunca acordar de novo.
Ezra segurou o bra?o de Micah com firmeza, seus dedos longos e gelados pressionando a pele pálida até que a veia se salientasse sob a luz trêmula da tocha.
Um rio azul pulsava por baixo.
Micah engasgou com o próprio choro.
— Ezra… por favor… eu n?o quero… eu n?o quero morrer… n?o assim...
O alquimista nem piscou.
— Você n?o vai “morrer”, Micah. — pontuou, como quem corrige definindo termos num quadro-negro. — Tecnicamente, você será… interrompido. Suspenso. O que é completamente diferente… em certas escolas de pensamento.
Micah puxou ar pela boca, como um peixe debatendo-se fora d’água.
— Ezra, eu fa?o qualquer coisa. Qualquer coisa. Eu juro. Eu posso trabalhar. Eu posso ser útil. Eu… eu…
O alquimista sorriu.
N?o de prazer.
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Mas daquele tipo de sorriso clínico que alguém dá ao ouvir um rato cantar ópera antes da vivissec??o: adorável, inútil, irrelevante.
— Micah… se eu quisesse utilidade, teria comprado outro escravo. Eu quero você exatamente por ser assim. T?o… cru. T?o pronto para florescer. T?o imaculadamente maculado.
Ele beliscou a bochecha de Micah, brincando com a pele macia.
Micah n?o tinha mais voz.
A boca abria, mas nada saía além de vapor quente, como um animal ferido for?ado a aceitar que o ch?o n?o existe mais sob seus pés.
Ezra empurrou suavemente a agulha contra a pele.
A ponta tocou a veia.
Hahahaha…
Se vocês vissem o que eu vi.
Ele parecia um coelho preso entre dois pneus.
Esse instante — quando a esperan?a percebe que nunca existiu —
é sempre o meu favorito.
Ezra inspirou profundamente, como quem aprecia o perfume de um vinho raro.
— A Primeira Etapa da Individualiza??o é o único momento em que um mortal toca o limiar… sem morrer. — explicou, quase com devo??o. — A implos?o da alma é dolorosa, claro. Mas brevíssima. Só dura… hm… três ou quatro segundos.
Micah arregalou os olhos.
— S-segundos…?
— Para você… — Ezra inclinou a cabe?a. — Talvez pare?a durar semanas.
A agulha entrou.
O líquido azul come?ou a se mover pelo tubo, como um fio de céu sendo empurrado em sua corrente sanguínea.
O efeito, imediato.
Um frio percorreu o bra?o de Micah. Depois o peito. Depois a espinha.
E ent?o tudo tremeu — ou foi sua alma tremendo.
— Ezra… eu n?o consigo… eu n?o sinto minhas pernas…
— Excelente. — avaliou o alquimista, como quem observa um mecanismo funcionando — O Corpo Espiritual está acordado. O físico, desligando.
As cores se dissolveram.
O som se dobrou sobre si mesmo, ficando espesso, pastoso.
Micah n?o conseguia mover nada — nem a própria língua.
Ezra apagou a tocha e abriu a porta para sair.
— N?o lute. Deixe sua alma encolher. Quando ela implodir… algo maior vai ocupar o espa?o.
Micah pode apenas ouvir a porta se trancando enquanto era mergulhado no isolamento total.
O silêncio era perturbador, era como se o volume das ondas sonoras tivesse dado uma volta completa. Era gritante, enlouquecedor. A únicas coisas que impediam o desaparecimento de sua mente eram os sons que seu próprio corpo produzia, e as constantes alucina??es.
Ele havia perdido a no??o do tempo, e mesmo assim ele se arrastava. Mesmo parado, o esfor?o era comparável, se n?o pior, à descarregar um caminh?o de sacos de cimento sozinho, sem parar por um instante sequer.
Por um momento ele até pensou que já estivesse morto, que tudo oque restava no pós vida era seus pensamentos, e esse vazio absoluto e imutável. Mas o seu batimento irregular, som fraco de seus pulm?es, e o barulho de seu est?mago consumindo à si mesmo eram infelizes lembretes de que seu sofrimento no plano físico ainda n?o havia encerrado.
As alucina??es se misturavam com lembran?as e ele já n?o sabia o que era real. Em algum momento ele pensou que Ezra sempre fora seu pai e que este mundo sempre fora seu lar.
Em outro, ele estava veemente convencido de que este lugar era o Inferno, que ele havia conseguido se jogar no córrego e isto era a puni??o por seus pecados.
E agora está convencido que ele nunca nem sequer tivesse existido, que toda sua vida foi apenas outra alucina??o desse purgatório infinito.
Até que ele simplesmente parou de pensar, como se sua consciência tivesse desligado sozinha, para sempre.
No entanto, Micah sentiu algo que havia esquecido à o que parecia meses, ele sentiu... tato?
Ele acreditava que era mais uma pe?a que sua mente havia pregado nele.
Mas dessa vez... era diferente, a sensa??o só intensificava.
Uma press?o esmagadora se fazia presente em cada centímetro seu, a cada segundo ficava mais difícil de respirar, a cada momento a dor piorava. Seus próprios sentidos come?aram à ser espremidos.
Seus olhos pareciam que iriam estourar.
Que seus tímpanos iriam romper.
Que seus pulm?es iriam explodir.
Que sua pele iria rasgar.
Cada orifício de seu corpo come?ou a sangrar. Micah tentou contorcer-se e gritar, mas seus membros seguiam à ignorar seus comandos.
Sua alma cedeu.
Por um único instante, talvez por um centésimo de segundo, ele sentiu uma dor indescritível e inimaginável, como se todos os nervos do seu corpo tivessem sido comprimidos num ponto infinitamente pequeno no mesmo instante.
Ent?o, um clar?o sem luz.
E escurid?o.
...
Ai... merda... é aquela dor de cabe?a infernal de novo...
Espera... O que é isso? Vento? E... areia?
Eu tentei abrir meus olhos novamente, descrente de que havia reavido minha mobilidade. Mas, para minha surpresa, dessa vez minhas pálpebras realmente obedeceram. Me encontrava ajoelhado, com as minhas m?os descansando sobre meu colo e minha cabe?a abaixada.
Ent?o, eu tentei mexer minha m?o, e... consegui!
Eu sentia meu rosto, sentia meu cabelo, sentia tudo! Meus olhos lacrimejavam de felicidade. Eu solucei. Apalmei cada dobra do meu corpo. Senti o cheiro do meu próprio suor. Lambi minha bochecha e senti o gosto salgado de minhas lágrimas. Me mergulhei completamente nas sensa??es que n?o havia experimentado à uma eternidade.
— M-meu corpo voltou... Meu corpo voltou. Meu corpo voltou! MEU CORPO VOLTOU! — Repeti várias vezes seguidas, testando os tons da voz que só ouvia em pensamentos.
Estava t?o absorvido no êxtase que nem havia percebido o frio. Quando o vento me atingiu, me dei conta de minha total nudez. Me levantei cuidadosamente, recuperando meu equilíbrio aos poucos.
Olhei ao redor. Eu n?o estava mais na mesma sala.
Cerrei os olhos devido à uma tempestade de areia constante, ela dificultava grandemente a vis?o, mas n?o impossibilitava que eu identifica-se meus arredores.
Um longo corredor se estendia tanto à frente, quanto atrás de mim, t?o longo que n?o se via seu final. Estranhamente, independente de qual dos lados eu olhava, o vento sempre soprava em dire??o à meu rosto, como se aquele tempestade fizesse quest?o de dificultar minha vida. O ch?o era de areia e o no teto havia uma fraca luz fluorescente. Sempre que eu caminhava em qualquer dire??o, a luz anterior desligava e uma nova se acendia acima de mim, limitando meu campo de vis?o para apenas alguns metros à frente de mim. Tanto as paredes quanto o teto eram familiares, mas eu simplesmente n?o conseguia nomear a origem dessa familiaridade. Era como se todos os corredores que já estive em minha vida ocupassem o mesmo espa?o.
Ent?o esse é o “Núcleo Pneumático” que aquele filho da puta falou?
Mas havia algo errado.
Eu n?o tinha sombra.
Ergui a m?o — nada atrás.
Nem à frente.
Nem abaixo.
Nem acima.
Como se a luz se recusasse a me reconhecer ali.
A partir dali, algo ainda mais bizarro ocorreu — n?o que tudo isso já n?o fosse estranho o suficiente, claro. Eu senti um aperto no meu cora??o, minhas m?os suavam e cheiro horrendo de enxofre se intensificava. Eu simplesmente sentia que algo terrível estava vindo, e que eu tinha que sair dali, e rápido. Portanto, comecei a caminhar.
Em algum momento da minha explora??o eu encontrei uma porta, t?o familiar e inominável quanto o corredor que a hospedava. Mas quando tentei abri-la, ela estava trancada. Na verdade, n?o estava necessariamente trancada, era como se toda vez que eu empurrava ela, uma for?a igual era aplicada do lado oposto. Alguém — ou algo — bloqueava a minha entrada.
Sabendo disso, resolvi tentar outra abordagem. Bati na porta três vezes:
— Tem alguém aí? Tá frio aqui fora... Por favor, você poderia pelo menos me dizer como saio desse lugar?
N?o ouve resposta.
— Tá bom, ent?o... — Bufei e segui meu caminho.
Com o tempo encontrei mais da mesma porta em ambos os lados do corredor, todas trancadas da mesma forma. Caminhei por horas, dias até, mas esse lugar n?o acabava nunca. Tentei arrombar as portas mas elas eram indestrutíveis. Tentei cavar a areia e dei de cara com um ch?o de pedra no fundo.
N?o havia saída a n?o ser continuar andando.
...
As solas dos meus pés já estavam cheias de bolhas de tanto andar descal?o, minha garganta seca implorava por água e meu est?mago por comida. Eu já estava farto disso tudo.
Logo resolvi tomar uma medida drástica. Parei em frente à uma das portas e sentei no ch?o. Iria encontrar o que quer que esteja atrás de mim, afinal, mesmo se eu continuasse, desabaria de sede em algum momento. Se eu for morrer, que seja procurando por uma saída.
Como esperado, a sensa??o de morte iminente voltou com tudo.
A cada momento a paranoia aumentava, meus olhos seguindo qualquer mínimo som ou vulto.
O cheio pungente de ovo podre se tornou insuportável.
A tempestade de areia piorou à ponto de ser impossível abrir os olhos ou sequer ou sequer respirar.
Quando meu cora??o estava prestes à rasgar ao meio de dor, tudo cessou. O cheiro, a dor no peito e a tempestade de areia, todos cessaram no mesmo instante.
Eu relutantemente abri meus olhos, ainda esperando uma enxurrada de areia. Porém, mais nada havia lá, sem sinal daquele presen?a terrível. Tudo estava... quieto demais.
Como se fosse planejado, assim que levantei-me, a porta em minha frente entrou em chamas. Me afastei de imediato, batendo minhas costas contra a parede oposta. Mas n?o sentia calor, n?o havia fuma?a.
Era um fogo impossível, um rascunho de fogo.
Ent?o ele apagou — n?o no sentido literal da palavra, mas como se, simplesmente, tivesse deixado de existir.
Logo em seguida a estrutura cedeu, quebrando em cinzas negras.
Aproximei-me cuidadosamente, passando por cima da porta, agora preta como carv?o.
Eu sentia que, o que quer que esteja do outro lado, estava... me esperando?
Eu n?o sabia exatamente quem.
Mas sabia que já estava atrasado.

